O Orient Express Corinthian: o maior veleiro do mundo partiu ontem, 02 maio, de Saint-Nazaire. O Orient Express nasceu em 1883 como um serviço ferroviário entre Paris e Viena. E agora o mesmo nome chegou ao mar. Vale lembrar que a distância entre esses dois momentos é uma das histórias mais incríveis do mercado de luxo.

O batismo do Orient Express Corinthian aconteceu na doca seca Joubert, em Saint-Nazaire, o mesmo estaleiro que construiu o Normandie e o Île-de-France. A cerimônia começou com uma saudação aérea de quatro jatos Fouga Magister nas cores da bandeira francesa, uma referência direta à história industrial da cidade, que desde os anos 1920 estendeu sua expertise da construção naval à aeronáutica. As três velas rígidas SolidSail foram içadas antes dos discursos. A bandeira francesa foi entregue a Laurent Castaing, Diretor Geral dos Chantiers de l’Atlantique, e o navio recebeu o direito de navegar sob as cores da França. Ontem, o Corinthian deixou Saint-Nazaire em direção à Riviera Francesa, onde inicia sua temporada inaugural no Mediterrâneo.

54 suítes em 220 metros de navio

Com 220 metros de comprimento e 15.000 toneladas, o Orient Express Corinthian ocupa a posição de maior veleiro do mundo. O dado impressiona, mas o que define o projeto é a proporção entre escala e capacidade: um navio desse porte acomoda apenas 54 suítes, distribuídas em quatro decks, com áreas entre 45 e 230 m². Cada suíte conta com janela panorâmica de 3,60 metros e pé-direito 25 centímetros acima dos padrões habituais da indústria. A suíte presidencial tem 230 m². Um mordomo dedicado atende cada cabine.

O projeto de interiores é assinado por Maxime d’Angeac, Diretor Artístico do Orient Express. O design exterior do navio é obra do Stirling Design International, estúdio de arquitetura naval sediado em Nantes. A referência estética é a era de ouro das viagens: os grandes transatlânticos e o trem histórico da própria marca, relidos em linguagem contemporânea e minimalista.

Cerca de 2.000 artesãos, artistas e ateliês contribuíram para a execução dos interiores, com uso de folheados de madeiras nobres, couros e mármores. A bordo, a oferta gastronômica está sob a direção do chef Yannick Alléno, detentor de múltiplas estrelas Michelin, com cinco restaurantes e salas de jantar privativas. Oito bares compõem a programação, incluindo um speakeasy em estilo Art Déco. O entretenimento inclui teatro cabaret com 115 lugares, cinema e estúdio de gravação profissional. O spa é operado pela Guerlain, com raia de natação de 16,5 metros, piscina e marina privativa. Tudo em regime all inclusive.

Maxime d’Angeac: o arquiteto de uma lenda

Há trinta anos Maxime d’Angeac conduz sua prática de arquitetura com a precisão de um ourives. Ao longo de duas décadas, construiu seu portfólio em colaboração com maisons como Daum, Hermès e Guerlain, com projetos que incluem a renovação completa da boutique Guerlain na Avenue des Champs-Élysées, em Paris. Diplomado pela École des Beaux-Arts e inscrito na Ordem dos Arquitetos Franceses, formou-se em arquitetura e acumulou experiências variadas antes de abrir seu próprio escritório em 1992.

O que ele nunca havia feito, até o Corinthian, era qualquer coisa remotamente náutica. Isso não impediu Sébastien Bazin, presidente e CEO da Accor, de convidá-lo em 2022 para assinar o maior veleiro do mundo. Havia céticos. “Todo mundo me disse que não seria possível”, afirma d’Angeac, com a satisfação de quem acabou de provar que muita gente estava errada. Quarenta e quatro meses depois de o projeto ter sido aprovado no Monaco Yacht Show, em setembro de 2022, o Orient Express Corinthian está no mar, e os céticos estão consideravelmente mais silenciosos.

D’Angeac assina também os interiores do futuro trem europeu Orient Express, com lançamento previsto para 2027, completando assim a reinvenção completa da marca nos dois meios de transporte que definiram sua história.

A tecnologia que move o vento

O coração técnico do navio é o sistema SolidSail, desenvolvido pelos Chantiers de l’Atlantique ao longo de dez anos de pesquisa. Três velas rígidas de 1.500 m² cada, totalizando 4.500 m² de velame, são completamente automatizadas e giram 360 graus para manter o trim ideal em qualquer ponto de navegação, independentemente da direção do vento. Os testes realizados em fevereiro de 2026 confirmaram o desempenho: com 20 nós de vento, o navio atingiu 12 nós utilizando exclusivamente propulsão eólica, resultado inédito para uma embarcação desse porte. O sistema é complementado por propulsão híbrida a gás natural liquefeito e confere ao Corinthian a melhor classificação EEDI da sua categoria.

Os mastros são fabricados em carbono de alta resistência e inclinam-se até 70 graus, o que permite ao navio passar sob as grandes pontes do mundo e acessar portos que navios de sua escala normalmente não alcançam. Um sistema de detecção assistido por inteligência artificial monitora continuamente a presença de mamíferos marinhos, alertando a tripulação para evitar colisões. O posicionamento dinâmico mantém a embarcação estável sem lançar âncoras, preservando o leito marinho nos pontos de parada.

Stirling Design International: arquitetura naval em Nantes

O Stirling Design International é um escritório de design e arquitetura naval sediado em Nantes, França, especializado em projetos e gestão de embarcações fluviais e marítimas. Foi fundado em 1976 por Joël Brétécher, ex-designer de automóveis com passagens pela Pininfarina e pela Ghia. Começando pelos setores automotivo e de veículos de lazer, o escritório expandiu sua atuação para o design naval e ferroviário, tornando-se uma referência consolidada no design de transporte.

Em 2007, Thibaut Tincelin, arquiteto naval formado pela École Polytechnique e pela Universidade de Tecnologia de Delft, assumiu a direção do escritório. Hoje, o SDI atua com uma equipe multidisciplinar de designers, arquitetos e engenheiros que cobre desde pesquisa e desenvolvimento até acompanhamento de construção. No Corinthian, o escritório foi responsável pela arquitetura exterior do navio, enquanto os interiores ficaram sob a responsabilidade de Maxime d’Angeac. Em 2026, o SDI comemorou 50 anos de história com uma exposição retrospectiva na École de Design Nantes Atlantique, reunindo arquivos, esboços e maquetes de seus projetos mais icônicos.

Accor: o grupo por trás da marca

A Accor foi fundada em 1967 na França por Gérard Pélisson e Paul Dubrule, com a abertura do primeiro hotel em Lille. Em pouco mais de cinco décadas, tornou-se um dos maiores grupos hoteleiros do mundo, com portfólio que reúne 5.836 hotéis e mais de 881 mil quartos em mais de 110 países. Em 2025, o grupo registrou receita global de 5,639 bilhões de euros, crescimento de 4,5% em relação ao ano anterior, e EBITDA de 1,2 bilhão de euros, alta de 13%.

O portfólio de luxo e lifestyle inclui marcas como Raffles, Fairmont, Sofitel, Orient Express, MGallery e Emblems Collection, além das marcas adquiridas por meio da Ennismore, como Delano, Mondrian e SLS. O segmento de luxo foi o de melhor desempenho em 2025, com crescimento de 9,8% na receita. Para 2026, o grupo prevê a abertura de cerca de 350 hotéis globalmente, com atenção crescente ao Mediterrâneo, à Índia e às Américas. No Brasil, a Accor opera mais de 330 hotéis sob 31 marcas e prepara a reabertura do Sofitel Rio de Janeiro Ipanema, além do lançamento do Faena São Paulo, previsto para 2029. O Orient Express Corinthian figura entre os projetos de maior destaque do grupo para 2026, ao lado do Orient Express Venezia, hotel de luxo em Veneza.

Mediterrâneo, Adriático e Caribe

Os itinerários da temporada inaugural cobrem o Mediterrâneo e o Adriático de maio a outubro de 2026, com travessia do Atlântico no outono para a temporada de inverno no Caribe. Em 2027, os roteiros se ampliam para o Mediterrâneo Oriental e o Norte da Europa. Os trechos variam de uma a quatro noites e podem ser combinados para compor viagens mais longas e personalizadas.

O Orient Express Corinthian é resultado de uma parceria entre a Orient Express, marca do grupo Accor, e os Chantiers de l’Atlantique. O Corinthian sintetiza o que o nome Orient Express acumulou em mais de um século: a convicção de que o trajeto importa tanto quanto o destino, que os materiais escolhidos dizem algo sobre quem os escolhe, e que o luxo tem a capacidade de atravessar gerações.

Curiosidades sobre o trem de Paris a Viena

O Orient Express fez sua primeira viagem em 5 de junho de 1883, partindo de Paris em direção a Viena. Era uma iniciativa de Georges Nagelmackers, filho de um banqueiro belga que havia percorrido os Estados Unidos de trem e voltado convicto de que era possível fazer melhor. O trajeto original foi se expandindo ao longo dos anos até alcançar Istambul, ligando os dois extremos geográficos e culturais da Europa em uma única composição ferroviária.

O que diferenciava o Orient Express desde o início não era apenas a rota, mas o que acontecia dentro dos vagões. Nagelmackers concebeu vagões que combinavam conforto, refinamento e cozinha de alto nível, com influência direta dos grandes transatlânticos da época. Com o tempo, os interiores foram sendo atualizados pelo Art Nouveau e depois pelo Art Déco, com painéis em marqueteria assinados por artistas como René Lalique. O serviço original funcionou até 1977, quando a concorrência da aviação comercial tornou a operação inviável. A marca voltou ao mercado em 1982, quando o empresário James Sherwood lançou o Venice Simplon-Orient-Express, com vagões originais dos anos 1920 e 1930 restaurados. Em 2017, a Accor adquiriu 50% dos direitos sobre o nome Orient Express da SNCF e passou a desenvolver novos projetos sob a marca. O Corinthian é o mais ambicioso deles até hoje.

Imagens e vídeos dessa matéria: www.orient-express.com e @orientexpresssailingyachts

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