Na Semana de Alta-Costura de Paris, edição outono/inverno 2025/2026 que começou na segunda-feira (07/07), Iris Van Herpen arquitetou uma experiência sensorial, filosófica e profundamente provocativa. Em um mundo onde a moda luta para redefinir a sua relevância, Iris Van Herpen emerge como uma alquimista do futuro, criando obras que flutuam entre arte, ciência e espiritualidade.

No coração do Teatro Elysée Montmartre, o desfile se iniciou com uma performance hipnótica: uma bailarina com asas de tule girava delicadamente sob uma pirâmide de luz, criando uma imagem etérea que parecia suspensa entre o real e o imaginário. Esse gesto inicial não era apenas estético, mas simbólico – uma introdução ao universo líquido e mutável de “Sympoiesis”.

“Sympoiesis”: Moda Viva, Consciente e Visionária
Inspirada na teoria de Gaia, que entende o planeta como um organismo vivo e interdependente, a coleção de Van Herpen mergulha nas profundezas do oceano como metáfora de nossa fragilidade ecológica. Tecidos translúcidos, silhuetas liquefeitas e camadas em movimento contínuo encarnam as marés e as criaturas amorfas que habitam esse universo subaquático. A fluidez das formas, muitas vezes ativadas pelos movimentos das modelos, dá vida a vestidos que parecem respirar, mutar e reagir ao ambiente.







Mas o ponto alto da apresentação foi, sem dúvida, o chamado “vestido vivo”, confeccionado em colaboração com o biodesigner Chris Bellamy. A peça abriga 125 milhões de algas bioluminescentes, cultivadas em um microecossistema cuidadosamente controlado. Elas brilham em resposta ao movimento, criando um espetáculo luminoso e sensorial – uma verdadeira simbiose entre natureza e moda. Mais do que um look, trata-se de uma entidade viva, que exige cuidado, reciprocidade e respeito.



A moda como ato filosófico e sensorial
Iris Van Herpen transcende a noção de vestuário como mero objeto de consumo. Suas criações são experiências sensoriais completas. Além da dança e da luz, o desfile foi perfumado com uma fragrância personalizada desenvolvida por Francis Kurkdjian, que permeava o ambiente com ondas olfativas, ampliando ainda mais o mergulho emocional do público.
Outros destaques incluíram vestidos de noiva criados com bio-proteína cultivada em laboratório – um material futurista, biodegradável e reciclável. É uma proposta radical para uma nova era da moda, em que a estética anda de mãos dadas com a ética e a ecologia.
“Sturm und Chic”: O Vento Techno de Van Herpen









A coleção também flertou com o futurismo urbano em um segmento chamado “Sturm und Chic”. A estilista apresentou vestidos cocoon, crinolinas de nylon técnico em formato de colmeia e sapatos arquitetônicos de 35 graus de inclinação – uma ode ao design extremo, onde a estrutura é tão relevante quanto a fluidez. A modelagem ultrapassa os limites do corpo, propondo novas formas de habitar o vestuário, em um verdadeiro manifesto de alta-costura escultórica.
A Moda como Futuro Coletivo
Com apenas 41 anos, Iris Van Herpen já tem uma retrospectiva no Louvre. E não por acaso, suas provocações e narrativas que expandem o papel da moda em um mundo em transformação. “Sympoiesis” é mais que uma coleção; é um manifesto sobre interdependência, urgência ambiental e inovação criativa.
Iris Van Herpen nos convoca: a vestir, a cuidar e a coexistir. Afinal, nas palavras da própria designer, “o corpo não é um ser isolado, mas um ecossistema – e a moda pode ser viva, responsiva e profundamente conectada com o mundo natural.”
Imagens via: http://www.fashionetwork






Você precisa fazer login para comentar.