Há lugares que não se revelam de imediato. Veneza é um deles. Cidade de silêncios líquidos, de luz filtrada e de histórias que parecem suspensas no tempo, ela encontra no Palazzo Donà Giovannelli um novo capítulo de sua narrativa. Transformado por Aline Asmar d’Amman no futuro Orient Express Venezia, o palácio do século XV ressurge como uma ode sensível à memória, onde cada detalhe foi pensado como um gesto de continuidade.

Arquiteta e designer de origem libanesa, Aline Asmar d’Amman construiu uma trajetória marcada por uma abordagem profundamente cultural do espaço. Fundadora do Culture in Architecture, seu trabalho transcende a dimensão estética para dialogar com história, arte e identidade. Sua assinatura é reconhecida por uma sensibilidade rara, onde o luxo se expressa de forma silenciosa, através de materiais, proporções e atmosferas que evocam emoção antes mesmo da forma.






Mais do que restaurar, Aline interpreta. Seu olhar percorre séculos com uma delicadeza quase arqueológica, revelando camadas invisíveis da história veneziana. Sob sua direção, o projeto preserva as pátinas do tempo, mantendo intacta a alma do lugar, enquanto introduz uma linguagem contemporânea sutil, jamais invasiva. O resultado não é apenas estético, mas emocional. Um equilíbrio raro entre herança e criação.




As suítes, concebidas como verdadeiros refúgios privados, traduzem essa abordagem com precisão. Amplas, banhadas por uma luz suave que atravessa cortinas generosas, elas dialogam com os canais ou jardins secretos, oferecendo uma sensação de espaço e silêncio quase irreais no coração de Cannaregio. Cada ambiente parece narrar uma história própria, onde materiais nobres, texturas delicadas e tons atemporais se encontram em perfeita harmonia.





Na Signature Suite, considerada a joia do palácio, a grandiosidade veneziana se expressa com naturalidade. Pinturas históricas, lustres de Murano e detalhes esculpidos convivem com uma elegância contemporânea, criando uma atmosfera de nobreza discreta. Já a Colori Persi Suite evoca uma poesia cromática inspirada nos pigmentos do século XVI, onde tons suaves ressurgem como memórias redescobertas. Na Cherubini Suite, o olhar se eleva aos tetos ornamentados, onde querubins parecem flutuar, acompanhando o ritmo sereno do espaço.



O projeto também dialoga com o espírito do Orient Express, não apenas como referência estética, mas como ideia de viagem. Aqui, viajar não é deslocar-se, mas atravessar camadas de tempo, mergulhar em narrativas e permitir-se habitar um imaginário refinado. Cada suíte torna-se um destino em si, um convite à contemplação.




Durante a Bienal, quando Veneza se transforma em epicentro da arte e da arquitetura contemporâneas, o palácio assume ainda mais relevância. Ele se posiciona como um espaço onde passado e presente coexistem com rara elegância, oferecendo uma experiência que ultrapassa o conceito tradicional de hospitalidade.



Aline Asmar d’Amman não redesenhou apenas interiores. Ela revela, com precisão e sensibilidade, a essência de um lugar. Em Veneza, sua visão ganha forma em um projeto que traduz o tempo em matéria e emoção, reafirmando sua posição como uma das vozes mais sofisticadas da arquitetura contemporânea.






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