Historicamente, o luxo sempre se apoiou nas artes visuais para construir narrativas de sofisticação. A pintura, a escultura, o design, a arquitetura — todos foram usados pelas grandes maisons para legitimar uma certa aura cultural. A arte fornece ao luxo aquilo que Roland Barthes (sociólogo e semiólogo francês) chama de “valor mítico”: uma linguagem carregada de significados, que transcende o uso e se converte em distinção simbólica.

“A aquarela também tem uma longa história nas Belas Artes (séculos XVIII e XIX como auge na Europa), associada a viajantes, naturalistas e artistas cultos. Essa memória histórica é acionada pelo marketing do luxo para reforçar conceitos como herança e autenticidade, unindo tradição e erudição”, diz a artista Myriam Dutra que nesse momento está lançando a segunda turma de seu curso “Do Zero ao Autoral”. São 8 encontros que acontecerão nos meses de outubro e novembro em Florianópolis (SC). E a ideia central é que as pessoas dominem o básico da aquarela e a partir daí criem a sua própria linguagem artística.



A aquarela, em especial neste momento em que vivemos, se aproxima do luxo porque carrega valores que coincidem com o universo das marcas de prestígio.
A leveza e transparência, por exemplo, equivalem à ideia de delicadeza, de exclusividade e de algo leve e rarefeito. A aquarela trabalha com transparência, fluidez e imprevisibilidade e cada mancha de água e pigmento se organiza de modo único, irrepetível. Para a artista Myriam Dutra, o valor da aquarela está naquilo que não pode ser replicado, assim como no luxo atual, cuja tendência é o “rarefeito”, produtos exclusivos, limitados, feitos sob medida, como experiências únicas. Mais do que o objeto, o luxo vende a aura da raridade e cada peça carrega a marca da singularidade, do artesanal, do não massificado.




“A pincelada aquarelada, por sua vez,marca o tempo num gesto único, não se repete, é efêmera e irreversível, é leve, quase etérea. O suporte (papel) absorve o gesto e a obra final parece flutuar. Existe uma tensão entre o material (pigmento, papel) e a sensação imaterial (luz, transparência). No mesmo sentido, no luxo atual muitas marcas buscam o intangível, aquilo que não se pode pegar — não só produtos, mas atmosferas, narrativas e sensações. O luxo se desloca do objeto em si para a experiência e ambos operam na fronteira do que é material, mas valem pelo imaginário que projetam.” explica Myriam Dutra sobre a aproximação entre a aquarela e o luxo.



O tempo e o risco de erro na Aquarela também se aproximam do luxo. A aquarelaexige rapidez e precisão, mas também uma execução mais lenta e a aceitação do acidente. O tempo da água é irreversível, não há como voltar. Cada gesto é definitivo, e o luxo atual também trabalha a ideia de tempo desacelerado, artesanal, feito à mão, slow luxury. O risco da imperfeição vira charme, um selo de autenticidade. Isso remete ao fato de que, tanto na aquarela quanto no luxo, o tempo não é cronológico, mas simbólico: tempo de cuidado, de espera, de paciência.



As marcas de luxo e a aquarela
Recentemente, várias marcas de moda e cosméticos recorreram à aquarela em campanhas gráficas, estampas e cenografias. O signo “aquarelado” é usado como, por exemplo, ícone de leveza e feminilidade (em estampas florais esfumadas em tecidos fluidos); ou como índice de manualidade, porque o traço do pincel comunica o toque humano, afastando a frieza digital; ou como símbolo de exclusividade, em função de que cada aguada é irrepetível, e cada produto se associa à ideia de peça única; ou até mesmo como metáfora de transição, porque o degradê aquarelado sugere, também, passagem, transformação, movimento contínuo — que também são valores do luxo contemporâneo.

O efeito aguado, translúcido e vaporoso da aquarela também evoca o sonho, o imaterial e o poético, todos signos que a semiótica do luxo explora para se diferenciar do “consumo banal” e se aproximar de uma estética mais etérea.

Semioticamente ambos buscam o signo da leveza. Enquanto o luxo atual se afasta da ostentação e se aproxima da exclusividade experiencial, a aquarela já nasceu nesse lugar: leve, efêmera, delicada, impossível de reproduzir em série. No mercado de luxo, o novo fetiche é aquilo que parece simples, mas exige complexidade invisível — exatamente como a aquarela. Ambos operam com os signos de raridade, imaterialidade e aura autoral. No fundo, aquarela é luxo visual em estado líquido.



A trajetória da artista Myriam Dutra
“Sempre gostei de desenhar pintar. Desde menina, vivi cercada por imagens e pelo imaginário da literatura infantil – na época só existiam Monteiro Lobato, as Fábulas de Esopo e os Contos dos Irmãos Grimm. Meus cadernos de escola não eram apenas lugares de anotações: eram territórios de desenhos e pinturas coloridas com lápis de cor, não para me distrair, mas para me concentrar. O desenho era o espaço onde minhas ideias se organizavam e onde eu transformava silêncio em pensamento visível.”, lembra Myriam.

A artista conta que também se encantava com a moda e nas revistas disponíveis encontrava outro universo. Recortava figuras, inventava roupas, bordava, costurava e criava mundos inteiros para as suas bonecas. Twiggy, modelo famosa na época, magérrima e charmosa, era seu ícone, e Myriam, insistente, atormentava costureiras do bairro para reformar as suas roupas. “Adolescente inquieta, e debaixo de repreensões maternas, cheguei a convencer um sapateiro a me deixar frequentar sua oficina para modificar minhas bolsas e sapatos, incluindo o sapato colegial. Cada detalhe era uma tentativa de imprimir algo único, autoral, que carregasse a marca da minha imaginação. Assim cresci, com a mão sempre inquieta, costurando e bordando tecidos e papéis, linhas e tintas, habitando um mundo paralelo, como quem busca traduzir o mundo para dentro de si e, ao mesmo tempo, devolvê-lo em forma de criação. A vida me presenteou cedo com um grande amor. Casei-me com meu primeiro namorado, e tivemos dois filhos de valor, homens de primeira linha, que mais tarde me deram ainda três netos, alegria e continuidade. Entre deslocamentos constantes de cidade, novas faculdades e empregos, segui com a arte sempre como fio condutor paralelo a me ajudar a elaborar o mundo real”, conta a artista.



“A aquarela me encontrou num momento de ruptura com minha própria linguagem estética. Ou talvez eu tenha encontrado nela o espelho de uma necessidade interior. Jovem adulta, com filho pequeno, na Faculdade de Artes Plásticas, ouvi de uma professora que minha linguagem estética precisava ser mais suave, mais calma e mais quieta. Aceitei o desafio da água e do pigmento, e mergulhei nesse território de transparências com sede de aprender o que parecia indomável. A aquarela me ensinou paciência e me devolveu potência: um meio frágil e ao mesmo tempo vibrante, que transformou minha busca em gesto e minha inquietude em cor”, diz Myriam Dutra.

Vale ressaltar que a artista frequentou o ateliê de Nathaniel Guimarães, grande mestre da aquarela clássica no Brasil. “Mesmo quando a distância nos separava por minhas mudanças de cidade acompanhando a carreira de meu marido, ele pacientemente me enviava pelo correio correções das minhas pinturas, guiando-me com disciplina e paciência. Mais tarde, frequentando o atelier do artista uruguaio Robinson Sobrera precisei encarar o contraponto: subitamente ele me lançou com energia no território da aquarela contemporânea, feita de aguadas descontroladas, papéis soltos sobre a mesa e pigmentos espalhados como manchas de vida.”
A cada cidade nova onde morou ou a cada viagem, Myriam sempre encontrava um ateliê de artista para frequentar, e teve a alegria de encontrar grandes mestres generosos e mentores de poética plástica que lhe ensinaram modos diversos de ver e de pintar. Foi nesse diálogo contínuo que ela aprendeu a liberdade de não ter uma única escola, mas de costurar percursos, linguagens e técnicas em busca de sua própria voz.


“As exposições foram surgindo naturalmente, levando meus trabalhos a diferentes lugares do mundo e me proporcionando experiências de contato com artistas maravilhosos e galeristas mentores genuinamente capacitados a orientar. Uma delas, que fez grande diferença no meu caminho como artista, foi conseguir entrar na rigorosa seleção da última grande exposição dos impressionistas em Paris, o Salon des Indépendents (100 anos de Impressionismo/2000) no Grand-Palais des Champs-Élysées, cujo catálogo/livro – guardado como um troféu – me colocou junto com todos os artistas que, de 1884 a 2000 romperam com a tradição da pintura e inauguraram um novo olhar sobre a arte, a luz e a cor, trazendo temas cotidianos ao invés de temas históricos ou religiosos. Poder me sentir pertencente a este grupo impressionista, que tanto me inspirava pelos esquemas tonais, reafirmou minha trajetória e me fez enxergar um diálogo com a tradição e a contemporaneidade.”, ressalta a artista Myriam Dutra. “Em paralelo, aprofundei meus estudos em arte e restauração na França (École Supérieure d’Art em Aix-em-Provence) e na Itália (Acccademia delle Belle Arti em Florença). experiências decisivas que me ensinaram sobre o refazer, o restaurar, sobre a paciência da matéria e a delicadeza do tempo na obra de arte.”


As mudanças de cidade, os estudos, a família, o trabalho na área corporativa, os altos e baixos da vida conduziram Myriam à pesquisa acadêmica. No mestrado e no doutorado, a artista mergulhou em reflexões sobre as interações humanas, os silêncios, os não ditos, a linguagem que vibra entre frequências invisíveis. Ali encontrou também a espiritualidade como presença sutil, que atravessa tanto a palavra, quanto o gesto artístico.
Na arte, esse percurso foi se traduzindo em expansão: da aquarela clássica às colagens, das impressões às aguadas livres, dos bastões de pigmento puro às técnicas mistas e ao mixed media. Cada camada, cada experimento, era mais do que recurso plástico: era também uma forma de dar corpo ao indizível, de transformar silêncio em presença e matéria em memória.
“Em todos os momentos, a arte foi minha forma de compreender o mundo antes de vivê-lo. Foi meu abrigo, minha lente e minha linguagem mais fiéis. Nesse sentido, entre aquarela, bastões, impressões e colagens, envelhecimentos e folheação a ouro, combinando técnicas há mais de 40 anos, sigo criando um território onde o visível e o invisível se encontram — e onde a vontade e a coragem de inventar o que ainda não existe continua a guiar meus passos.”






CURSO: AQUARELA – DO ZERO AO AUTORAL
Quando: 10, 17, 24, 31/10 • 7, 14, 21, 28/11
Horário: 14h às 17h
Onde: A.Oficina – anexo ao Primavera Garden (Passeio Primavera, Rod. SC-401, Florianópolis – SC) @passeiocultural.primavera
Investimento: R$ 1.920,00 (parcelamento em até 10x)
Para quem é?
Iniciantes, curiosos e também para quem deseja avançar do domínio técnico à expressão pessoal — com segurança, referências e prática acompanhada.
Inscrições & informações
WhatsApp: (51) 99104-4605
Instagram: @myriamdutra






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