A 55ª coleção de alta-costura da Balenciaga é a primeira assinada por Pierpaolo Piccioli à frente da direção artística da maison, e o resultado é menos uma apresentação de roupas do que uma declaração de princípios.





Fundada por Cristóbal Balenciaga, a maison sempre tratou a costura como um território de pesquisa, quase de engenharia. Piccioli parece ter entendido isso antes de desenhar a primeira peça, em vez de propor uma ruptura estética, ele optou por escavar os alicerces da marca, seus axiomas, suas contradições, suas verdades, e traduzi-los para a linguagem do presente. A ideia central da coleção poderia ser resumida a costura como informação, como um método de criação capaz de orientar tanto o gesto quanto a reação de uma casa de moda. Um campo de experimentação e disciplina técnica.





Essa filosofia se materializa de dentro para fora, as silhuetas nascem da arquitetura da peça, é o corte e o caimento do tecido que determinam como a roupa dialoga com o corpo que a veste.




O apetite da Balenciaga por inovação têxtil, marca registrada da casa desde os tempos de seu fundador, ganha um novo capítulo com a apresentação do Amsilk, alternativa bioengenharia à seda tradicional. Produzida por edição genética e engenharia de proteínas em laboratório, a fibra dispensa qualquer combustível fóssil em sua origem e apresenta resistência à tração superior à do próprio aço, remetendo à estrutura da seda de aranha. É ciência aplicada à sensibilidade têxtil, um gesto que atualiza o legado experimental de Cristóbal Balenciaga sem nostalgia.




Outro protagonista da coleção é o neo-gazar, releitura contemporânea do tecido criado pelo fundador da maison e já reintroduzido na estreia de Piccioli. Usado tanto como tecido de superfície quanto como estrutura interna das peças, o material brinca com sua própria contradição, leveza e rigidez ao mesmo tempo, moldando literalmente as silhuetas ao redor do corpo. Em alguns looks, a mesma peça reaparece depois, reduzida a uma expressão quase fantasmagórica da silhueta original, toda em preto, como se fosse sua própria sombra. Um recurso que reinicia o olhar e devolve o protagonismo à forma pura.



Há, ainda, um momento de pura fantasia técnica. A colaboração com o chapeleiro Philip Treacy resulta em estruturas esculturais em plumas que borram deliberadamente a fronteira entre chapelaria e vestimenta. As penas, aqui, deixam de ser ornamento frágil para se tornarem quase arquitetura, leves, mas resistentes, delicadas, mas estruturais.




O que fica, ao final do desfile, não é a sensação de estar diante de uma homenagem literal a Cristóbal Balenciaga, mas de algo mais sutil: um eco de seu pensamento. Piccioli não tenta traduzir a história. Ele parece acreditar, como o próprio fundador, que a moda não se resume à superfície. A obsessão do espanhol pela tridimensionalidade, pela costura como verdadeira escultura corporal, atravessa toda a coleção, que convida o espectador a caminhar ao redor das peças, a observá-las de todos os ângulos, para compreendê-las de fato.




Se a primeira coleção de um diretor artístico costuma funcionar como cartão de visitas, Pierpaolo Piccioli optou por um gesto mais ousado: apresentar, antes de tudo, uma filosofia. Uma maneira de pensar a alta-costura que talvez seja capaz de guiar não apenas essa coleção, mas o futuro inteiro da maison Balenciaga.









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