Durante muitos anos, eu acreditei que fosse uma pessoa perfeccionista e chata, daquelas que ninguém quer ter por perto. Mas, com a maturidade, comecei a entender que a minha curiosidade é tão grande que focar nos detalhes, quase sempre, me levava a encontrar novas maneiras de perceber o meu trabalho e de fazer as coisas de forma diferente.

Balenciaga -Outono/ Inverno 2026/2027 Paris – haute couture detalhes

Há uma frase atribuída ao arquiteto Ludwig Mies van der Rohe que reaparece, há décadas, nas conversas sobre moda e arquitetura: “Deus está nos detalhes”. Discordo, com todo respeito ao renomado mestre. Penso que a excelência está na atenção que dedicamos ao que fazemos e que “Deus está no amor que sentimos por nosso trabalho”.

Passei mais de quatro décadas observando marcas e profissionais e descobri que o que separava uma entrega boa de uma entrega excepcional quase nunca era uma ideia grandiosa. Muito menos estava em um lançamento repleto de efeitos especiais, na apresentação mais barulhenta ou na promessa mais ambiciosa. Na maioria das vezes, a diferença aparecia quando alguém havia cuidado da execução até o ponto em que já não era possível retirar nada sem prejudicar o conjunto.

Confesso que aprendi muito trabalhando com profissionais que faziam teatro, se autopromoviam descaradamente, mas não entregavam quase nada. Barulho demais para uma entrega medíocre.

Há uma distinção importante entre excelência e perfeccionismo. Muitas vezes, tratamos os dois como sinais de uma mesma exigência, mas não são. Uma revisão acadêmica recente, comentada pelo psicólogo organizacional Tomas Chamorro-Premuzic, professor da University College London, separa esses conceitos com uma clareza que eu teria apreciado encontrar há trinta anos.

O perfeccionismo costuma ter suas raízes fincadas no medo. Medo de errar ou de decepcionar quem espera determinado resultado. Em certa medida, pode indicar ambição e Cuidado, porém, quando passa dos limites produz niveis altissímos de ansiedade e esgotamento, e o pior sem entregar um resultado proporcionalmente melhor. A associação com o desempenho é fraca, e a relação com o burnout aparece com mais força.Quase sempre é assim.

Bulgari

A excelência trabalha com outra disposição. Os autores da revisão usam o termo “excelencismo” para definir padrões elevados acompanhados de flexibilidade. A palavra não é particularmente bonita, mas a ideia me parece útil. Não precisamos acertar sempre,  necessitamos saber exatamente onde a precisão é indispensável e ter maturidade para corrigir o percurso quando necessário.

Penso que, quando a pessoa está aberta para o novo e trabalha para se despir dos preconceitos e dos julgamentos precipitados, começa a adquirir um novo olhar sobre o próprio trabalho e a se tornar mais flexível. Assim, tem mais autocompaixão e, consequentemente, muito mais amor por aquilo que faz.

Com o passar do tempo, descobri que a atenção aos detalhes também pode ser avaliada. Um estudo publicado no periódico Personnel Assessment and Decisions desenvolveu um teste de desempenho para medir essa habilidade e encontrou uma relação consistente com as avaliações feitas por supervisores. Há, portanto, uma competência prática por trás daquilo que muitas vezes chamamos apenas de cuidado.

Elie Saab – Outono/ Inverno 2026/2027 Paris – haute couture detalhes

No mercado de alto padrão, isso se torna evidente. Pesquisas sobre marcas de luxo indicam que a disposição do cliente para pagar mais está ligada ao cuidado percebido na construção de um produto ou serviço. O valor também está na coerência entre o material escolhido e a proposta da marca, algo que o cliente aprende a reconhecer com o tempo.

The Estée Lauder Companies

As pessoas podem não identificar conscientemente uma proporção mal resolvida, uma escolha inadequada de matéria-prima ou um serviço improvisado. Ainda assim, percebem que algo não foi bem pensado.

Gucci

Comecei a trabalhar com máquina de escrever. Um erro podia exigir o recomeço de uma matéria inteira. Foi ali que aprendi a respeitar uma vírgula fora do lugar e a diferença entre uma palavra possível e a palavra correta. O leitor nem sempre sabe apontar a falha, mas sente quando uma frase não encontrou sua forma definitiva.

Hoje, aplico o mesmo critério ao construir um brandbook, elaborar um documento com a estratégia da cliente ou escrever uma legenda para o Instagram. O suporte mudou, a velocidade também, mas o compromisso com o que chega ao público continua o mesmo.

Não acredito em talento puro. Confio na disciplina de revisar e na humildade de continuar aprendendo. Também é preciso discernimento para saber quando insistir e quando colocar um ponto final no texto. Um trabalho bem feito não precisa fazer barulho para ser lembrado. Às vezes, ele permanece justamente porque ninguém consegue apontar o instante exato em que a excelência aconteceu, mas o resultado fica na memória do leitor. O tempo, nesse caso, costuma ser o editor mais rigoroso.

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