Daniel Roseberry apresentou no Centre Pompidou a sua coleção Schiaparelli SS26, peças que uniram a disciplina da alfaiataria e a fantasia surrealista da marca.




Em tempos de distrações efêmeras e algoritmos insaciáveis, Daniel Roseberry propôs uma pausa. No dia 2 de outubro, o diretor criativo da Schiaparelli apresentou a coleção Primavera/Verão 2026 no Centre Pompidou, em Paris, e a escolha do cenário não foi acidental. A experiência se aproximou de uma visita museológica, um convite à contemplação em vez do espetáculo fugaz, com peças que uniram a disciplina da alfaiataria e a fantasia surrealista da marca.




“Dançando no escuro”, como descreveu o próprio Roseberry, a coleção abraçou a liberdade e o êxtase através de peças que carregam peso, textura e ressonância histórica. O conceito é claro: em um mundo sedento por novidades descartáveis, a Schiaparelli oferece roupas feitas para durar mais que um scroll de tela.
Disciplina e Fantasia




No coração da proposta está o DNA de Elsa Schiaparelli — a fundadora que sempre flertou com o atrito entre opostos. Roseberry traduziu esse espírito em jaquetas sob medida de corte impecável, sem adornos desnecessários, com ombros retos que personificam controle e contenção. O chamado “tailleur rigueur” estendeu-se a uma série de vestidos longos, esguios e sem alças, construídos a partir de um caleidoscópio de técnicas, mas contidos numa paleta rigorosa de preto, branco-osso e carmesim.



Era “hard chic”, uma linguagem ao mesmo tempo enxuta e carregada de emoção, onde a disciplina formal convive com a fantasia surrealista. As malhas trompe-l’oeil emergiram como protagonistas da narrativa. Executadas em jacquards tricolores, essas peças remetem diretamente aos tricôs lúdicos de Elsa, revivendo a tradição de humor e provocação da maison. Os desenhos de Roseberry dos últimos meses se materializaram em vestir, colapsando o espaço entre esboço e roupa. “Chocante na época, chocante agora”, afirmou o estilista.

Blazers acinturados ganharam pequenas bolas de tecido no quadril, saias de cós ondulado conversavam com tops que faziam o mesmo movimento na barra, e peças totalmente vazadas em padrão de bolinhas criavam efeitos surrealistas de camadas, como uma camisa de smoking em popeline branca usada sob uma jaqueta recortada, revelando a pele através do tecido.
Acessórios Esculturais

Se as roupas carregavam referências pictóricas, os acessórios consolidaram o diálogo entre arte e moda. A icônica bolsa Secret surgiu em volumes suaves que evocam os relógios derretidos de Dalí. Os sapatos, iniciados em esboços e finalizados com precisão escultural, apresentaram saltos curvos em metal dourado com acabamento esculpido à mão, além de detalhes surrealistas como pequenos sóis.
As botas derby mereceram atenção especial: trançadas ou tecidas à mão em couro branco, decoradas com ilhós de joias descombinadas em metal dourado e strass, com cadarços tipo espartilho. Cada peça continha evidências da mão humana, reforçando a insistência de Roseberry de que mesmo produtos comerciais devem carregar a aura de uma obra de arte. Chapéus esculpidos à mão em madeira de tília, joias surreais para o nariz em latão dourado, bolsas adornadas com bijuterias anatômicas esmaltadas formando rostos trompe-l’oeil, tudo convergia para a mesma narrativa: o vestir cotidiano pode ser transformado em ritual.
Legado Surrealista
A coleção defendeu que roupas do dia a dia podem sustentar a fantasia. Cardigans de malha de viscose com babados esculturais em cetim memory, blusas assimétricas em couro macio com relevos trompe-l’oeil inspirados nos arquivos da maison, vestidos em denim cru totalmente vazados — cada look era uma declaração de que a moda pode, e deve, transcender a funcionalidade banal.
A Schiaparelli de Roseberry se posiciona como guardiã de uma tradição que recusa a obsolescência programada. Em um cenário onde o mercado de luxo enfrenta questões sobre relevância e propósito, a maison oferece uma resposta clara: investir em peças com significado, que dialogam com a história da arte e com a liberdade são atemporais.
O desfile encerrou com um lembrete poderoso: a moda ainda tem o poder de inspirar a nossa criatividade. Nesta temporada, a Schiaparelli ofereceu um manifesto sobre o que o luxo pode significar quando transportado para o ritmo da vida cotidiana. Como disse Roseberry, é tempo de dançar no escuro — e a Schiaparelli acendeu as luzes certas para iluminar o caminho.






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