No Espace Louis Vuitton Beijing, a exposição Jean-Michel Othoniel: Dazzling Trilogy – Selected Works from the Collection reúne instalações que atravessam mais de duas décadas da produção do artista francês. Em cartaz até o dia 6 de setembro, a Mostra integra o programa Hors-les-Murs da Fondation Louis Vuitton e celebra duas datas simbólicas: os 20 anos dos Espaces Louis Vuitton e os dez anos da iniciativa que leva obras da coleção da Fundação a diferentes cidades do mundo.

Rivière Rose, 2026. Instalação criada para Dazzling Trilogy. © Jean-Michel Othoniel, ADAGP, Paris, 2026. Cortesia do artista. Foto: © Sun Shi / Louis Vuitton.

A exposição se organiza como uma composição emocional e espacial, na qual luz, cor e movimento conduzem o visitante. As obras aproximam dor e beleza, presença e ausência, intimidade e monumentalidade. O resultado é uma paisagem contemplativa em que o vidro parece respirar com o ambiente.

Mais do que apresentar esculturas isoladas, Dazzling Trilogy constrói relações. As superfícies espelhadas incorporam o visitante, multiplicam os pontos de vista e transformam o espaço em um teatro de memória. O corpo deixa de permanecer diante da obra e passa a participar de sua instabilidade: aparece, desaparece e se desloca dentro dos reflexos.

Da sombra para a luz: o processo criativo de Othoniel

Nascido em 1964, em Saint-Étienne, Jean-Michel Othoniel estudou na École d’art de Cergy e iniciou sua trajetória investigando materiais como enxofre, cera, chumbo e obsidiana, além da fotografia, de livros e manuscritos. Desde cedo, interessou-se pela alquimia, pela transformação e pela capacidade da matéria de conservar marcas do tempo.

Lágrimas, 2002. Vista da exposição Dazzling Trilogy, Espace Louis Vuitton Beijing, 2026. © Jean-Michel Othoniel, ADAGP, Paris, 2026. Cortesia do artista e Fondation Louis Vuitton, Paris. Foto: © Sun Shi / Louis Vuitton.

O encontro com a tradição veneziana do vidro, no início dos anos 1990, abriu uma nova direção. Em 1996, durante um período decisivo de sua trajetória ligado à Villa Medici, em Roma, o vidro se consolidou como centro de sua linguagem. Othoniel descreve essa mudança como uma passagem “da sombra para a luz”.

Desde então, desenvolve suas obras em estreita colaboração com mestres vidreiros, metalúrgicos, engenheiros e artesãos. Seu processo não busca controlar completamente a matéria: as variações provocadas pelo fogo, os acidentes, os gestos manuais e as imperfeições do vidro são acolhidos como elementos constitutivos da criação. Transparência, reflexo e cor tornam-se instrumentos para dar forma a temas como desejo, memória, fragilidade, cura e renascimento.

O vidro, entretanto, não é escolhido apenas por sua beleza. Ele reúne qualidades contraditórias. É resistente e quebrável, visível e transparente, sólido e atravessado pela luz. Pode lembrar uma pedra preciosa, mas conserva a possibilidade da ruptura. E essa ambivalência sustenta uma obra que procura, segundo o artista, erguer monumentos à fragilidade humana. Suas contas de vidro são repetidas, encadeadas e ampliadas até assumirem a forma de colares, guirlandas, rios, fontes e arquiteturas monumentais. O ornamento deixa de pertencer apenas ao corpo e transforma-se em paisagem, envolvendo também o espectador por meio da luz e do reflexo.

 

Lágrimas, travessias e memória

Em Lágrimas, de 2002, recipientes de vidro preenchidos com água sustentam formas delicadas, suspensas como gotas prestes a cair. A instalação evoca espaços de oração e recolhimento, com a luz atravessando a água e o vidro, modificando-as continuamente. A lágrima se torna uma presença material da dor, mas também um sinal de passagem, cura e transformação.

Le Bateau de Larmes, 2004. Vista da exposição Dazzling Trilogy, Pequim, 2026. © Jean-Michel Othoniel, ADAGP, Paris, 2026. Cortesia do artista e Fondation Louis Vuitton, Paris. Foto: © Sun Shi / Louis Vuitton.

Em Le Bateau de Larmes, de 2004, uma pequena embarcação encontrada nas margens de Miami é transformada pela presença de contas luminosas de vidro. O barco conserva sua precariedade e sua história, que é anônima, mas recebe uma dimensão ceremonial, aproximando migração, deslocamento, perda e esperança. O brilho não apaga a tragédia, mas lhe  oferece uma forma capaz de permanecer na memória.

Poesia, literatura e psicanálise atravessam o pensamento de Othoniel. Inspirado por Jacques Lacan, o artista concebe suas exposições como experiências emocionais e espaciais, reunindo referências à espiritualidade, à memória e às tradições artesanais. Objetos devocionais, tradições populares, símbolos espirituais e lembranças pessoais se encontram sem que um único significado seja imposto ao visitante, e a fragilidade deixa de representar fraqueza e transforma-se em força poética, verdadeiros monumentos à condição humana, movidos pela beleza, pela história e pelo amor.

Quando o colar se torna arquitetura

Na sala final, White Wild Lei, de 2009, estabelece um diálogo com Rivière Rose, criada em 2026 especialmente para a exposição. A primeira obra é um colar monumental inspirado no gesto havaiano de receber visitantes com guirlandas de flores. Sua forma também recorda a mandorla, um contorno luminoso da arte cristã que envolvia o corpo inteiro de figuras sagradas, uma aura de luz, transcendência e passagem entre o mundo terreno e o divino. A peça reúne acolhimento, ausência e permanência, homenageando aqueles que continuam presentes por meio da memória.

Rivière Rose

O colar pertence ao vocabulário da moda e da joalheria, mas Othoniel altera radicalmente sua escala. Aquilo que deveria repousar sobre o corpo cresce até se tornar arquitetura,  deixando de acompanhar quem o veste e passando a envolver o visitante. Essa passagem do acessório para o ambiente parece ser  um dos pontos mais férteis para compreender a relação entre a exposição e o universo da moda.

Rivière Rose espalha pelo chão blocos de vidro rosa fundidos artesanalmente, formando um curso luminoso. E a verticalidade suspensa de White Wild Lei encontra a horizontalidade do rio. Uma obra sugere corpo, colar e portal; a outra, fluxo, paisagem e deslocamento. Juntas, criam uma experiência em que a beleza não é decorativa, mas organiza o espaço e orienta a percepção.

Arte, moda e o valor do savoir-faire

A aproximação entre Othoniel e a Louis Vuitton não acontece apenas porque uma marca de moda recebe uma exposição de arte. O elo mais profundo parece estar no fazer. Tanto a prática do artista quanto a tradição da Maison dependem de conhecimento técnico, trabalho coletivo, experimentação material e execução artesanal de alta complexidade.

Othoniel desenvolve seus projetos com metalúrgicos, engenheiros, mestres vidreiros e equipes especializadas. Em vez de eliminar as variações do processo, acolhe o acaso, o gesto e as transformações provocadas pelo fogo. Cada módulo carrega a inteligência da mão e da matéria. No luxo, esse conhecimento transmitido e aperfeiçoado ao longo do tempo constitui o que se chama de savoir-faire: não apenas habilidade produtiva, mas patrimônio cultural.

A relação do artista com a Maison também possui um antecedente direto. Em 2020, Othoniel participou da segunda edição do projeto Artycapucines, no qual artistas internacionais reinterpretaram a bolsa Capucines. Sua criação, limitada a 200 exemplares, combinava ráfia trançada, acabamento em cetim preto utilizado na alta-costura e uma alça formada por grandes contas de resina negra, referência imediata às suas esculturas monumentais. Essa mesma lógica orientou sua interpretação da bolsa Capucines para a Louis Vuitton: técnicas associadas às suas esculturas foram traduzidas para uma peça portátil, aproximando arte, moda, alta-costura e savoir-faire artesanal.

Na Artycapucines, a escultura foi traduzida para um objeto de moda. Em Dazzling Trilogy, o movimento se inverte: formas associadas à joalheria e ao ornamento ampliam-se até se tornarem paisagem. A continuidade entre as duas experiências mostra que moda e arte podem compartilhar processos e perguntas, sem que uma linguagem precise ser reduzida à outra.

 

A beleza como forma de proteção

Othoniel afirma que a beleza possui o poder de se proteger. A frase é especialmente significativa em uma época na qual o belo muitas vezes é tratado como superfície, consumo rápido ou simples sedução visual. Em seu trabalho, a beleza não nega a vulnerabilidade, mas nasce justamente da possibilidade da quebra, da perda e da transformação.

Essa ideia também ajuda a compreender uma mudança no próprio conceito de luxo. O valor deixa de depender somente da raridade material e passa a envolver tempo, conhecimento, memória e permanência. O objeto precioso importa, mas importa igualmente a rede de gestos, pessoas e técnicas que tornou sua existência possível.

Ao oferecer entrada gratuita e apresentar obras de sua coleção em cidades como Pequim, Tóquio, Veneza e Munique, o programa Hors-les-Murs amplia o alcance cultural da Fondation Louis Vuitton. Ao mesmo tempo, insere a Maison em uma discussão que ultrapassa o produto e se centra em como preservar o fazer, apoiar a criação contemporânea e construir experiências que devolvam tempo e atenção ao público.

Em Dazzling Trilogy, a fragilidade não é uma fraqueza a ser escondida. É condição de humanidade e fonte de criação.Entre lágrimas, barcos, colares e rios, Jean-Michel Othoniel oferece uma visão de luxo que não se mede apenas pelo brilho, mas pela capacidade de transformar a matéria em memória e a beleza em presença.

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